quinta-feira, 1 de março de 2018

Uma praga e uma bela planta chamada Erva-de-passarinho

"Erva-de-passarinho é o nome genericamente empregado para designar as plantas escandentes (trepadeiras) da família botânica das lorantáceas (Loranthaceae). São assim conhecidas por estarem associadas ao costume alimentar de aves, que consomem os seus frutos e são considerados os principais agentes de dispersão das suas sementes. A erva-de-passarinho parasita desde arbustos a arvoretas e árvores de ruas, praças, jardins e pomares. Fixa-se nos galhos e troncos da planta hospedeira, onde se desenvolve vigorosamente e ocupa partes localizadas ou quase a totalidade da copa. Através da emissão de raízes especiais (haustórios) que atravessam a casca do hospedeiro, a erva-de-passarinho retira dele água e sais minerais, elementos vitais para a sua sobrevivência."

Erva-de-passarinho em árvore perto da minha casa. A hemiparasita está localizada no meio do tronco e suas folhas são bem parecidas com as da planta original, o que confunde e passa desapercebida.





"Ao desenvolver-se sobre o hospedeiro, a erva-de-passarinho independe de um contato com o solo, sendo, na maioria dos casos, parasita de ramos. Sendo uma planta hemiparasita (parcialmente parasita), além de se beneficiar pela absorção de elementos minerais da planta hospedeira, através do seu sistema radicial transformado em órgão de aderência e absorção, realiza também a fotossíntese, por possuir folhas normais, providas de estômatos e clorofila, metabolizando substâncias orgânicas para o seu desenvolvimento."


Percebam as vigorosas raízes (haustórios) que se confundem com o tronco da árvore, mas na verdade são da erva-de-passarinho. Foto da mesma árvore perto de minha casa.

"Estas características certamente contribuem para a sua grande capacidade de proliferação e a torna muito resistente à erradicação. A infestação pela erva-de-passarinho pode ser considerada um fator relevante a ser monitorado pois, se em desequilíbrio, compromete a arquitetura das árvores, interfere potencialmente no vigor das árvores e, ainda, prolifera-se com facilidade, o que pode comprometer todo um programa de arborização. Deve-se ressaltar, contudo, que estas plantas ocorrem naturalmente em florestas nativas, fazendo parte do ecossistema natural."


Todo este texto em verde copiei ipis literis do artigo : "Erva de-passarinho (loranthaceae) na arborização urbana" e pode ser acessado no link "Fonte" acima, no final do texto. Não tive como não fazê-lo, pois resume tudo exatamente o que quero desenvolver neste post.

A última frase que deixei em letras garrafais, tem um motivo simples. As várias espécies de erva-de-passarinho que estão se alastrando nas cidades e muitas das vezes matando árvores centenárias, são plantas comuns e vivem em harmonia em seu habitat natural. Até porque são fonte rica de alimento para os pássaros e muitas são usadas como plantas medicinais há séculos. O mesmo acontece com muitos "matos" que retiramos dos nossos quintais, que são considerados invasivos por tomar conta de tudo, mas que na verdade a maioria tem poderes medicinais e são utilizadas como PANCs (Plantas alimentícias não-convencionais). Tudo vêm de um desequilíbrio do ser humano e a natureza.


Ligustro tomado pela erva-de-passarinho Tripodanthus acutifolius.
Fonte da foto

Na verdade essa hemiparasita tem plantas lindíssimas, que dão florações exuberantes e perfumadas; e como podemos ver na foto acima, passam totalmente desapercebidas por tomarem conta da árvore original.


Frutos da Tripodanthus acutifolius
Fonte da foto

Eu já cheguei a me encontrar com esta planta em um parque aqui da minha cidade, e achei muito interessante e nem imaginava o que fosse. As flores pareciam de dama-da-noite (Cestrum noturnum), eram bem cheirosas e seus frutos azuis soltavam uma "tinta". Até achei que fosse outra planta na qual esses frutos são usados mesmo como corante. Cheguei a trazer pra casa e plantei, mas depois que fiquei sabendo que era parasita (hemiparasita na verdade, isso vamos discutir em outro post sobre outra planta muito perigosa, e essa sim parasita total), joguei fora.



Lindíssima floração da Tripodanthus acutifolius
Fonte das fotos

Penso que também deve ser fonte de néctar à vários pássaros e insetos. Uma pena causar tantos problemas na arborização urbana. Então é importante identificar para controlar. Se cada pessoa cuidar da árvore da sua porta e até mesmo da sua rua, podemos tentar evitar que muitas árvores centenárias sejam mortas. Pois como vimos no texto no começo do post, com o tempo a erva-de-passarinho vai tomando conta da árvore e sugando toda a sua seiva. Aqui na minha cidade é bem comum ver mas ninguém percebe exatamente por não ser divulgado e por falta de interesse do município.


Outras espécies


Frutos da erva-de-passarinho, também conhecida como "visco" em Portugal. Nome científico Viscum album
Fonte da foto

Viscum album

Infelizmente ela não acorre naturalmente no Brasil. Apesar de ser parasita, digo infelizmente pois nas minhas pesquisas vi que ela tem muitos usos na medicina e até em tratamento contra o câncer. Encontrei um site em que uma equipe do Brasil trabalha com esta planta. Mas como o foco do site não é este, deixo para que dêem vocês mesmos um Google para saber mais. E além de tudo é uma belíssima planta. Só por suas lendas, eu já teria uma em casa, vejam:


"O visco é associado ao Natal, colocado nas portas dá-nos boa sorte e, diz a tradição, que deve-se beijar sob o visco, tradição esta que tem origens históricas e mitológicas. 
O visco foi considerado pelos druidas uma planta mágica; recolhiam-na sem que tocasse no chão e tinha diferentes propriedades curativas. É a planta mágica por excelência, desde os tempos antigos. 
Tem sido considerada como uma planta associada à fertilidade e boa sorte devido à sua capacidade de manter-se sempre verde. Também, era colocado sobre os berços como amuleto, protegendo o bebé de qualquer mal. 
Os escandinavos acreditavam que o visco era uma planta de paz e declaravam tréguas ao inimigo, beijando-se e fazendo as pazes debaixo desta planta. Nas Saturnais Gregas, os jovens colocavam-se debaixo do visco e dizia-se que não podiam recusar um beijo, porque isso significaria um ano sem oportunidade de casamento. 
Também, os Ingleses, a partir do século XVIII, começaram a pendurar o que eles chamavam de Kissing Balls ou Bolas para beijar, que era uma bola de visco com fitas e decorações, em que, assim como os jovens gregos, as meninas inglesas não podiam recusar o beijo e, se fossem beijadas na bochecha, significava iam casar-se em breve."

Outras 


Outra interessante espécie de erva-de-passarinho. Misodendrum linearifolium. Não ocorre no Brasil.
Fonte da foto

A erva-de-passarinho utilizada no Brasil como medicinal é a Struthanthus flexicaulis. Mas deve-se tomar cuidado na utilização, pois como as espécies são parecidas, pode-se errar na identificação. O mais indicado é comprar em farmácias e casas de ervas a planta já seca e pronta para o consumo. Para saber mais sobre suas propriedades, clique aqui.

Fonte da foto

Struthanthus flexicaulis
Fonte da foto


Outra belíssima espécie de erva-de-passarinho:  Psittacanthus robustus. Esta sim encontrada em alguns locais do Brasil. Fonte das fotos aqui.






Psittacanthus lamprophyllus Eichler




Psittacanthus sp




Enfim, apesar de belíssimas plantas, nos centros urbanos devemos erradicá-las. E no seu habitat devemos deixá-las a embelezar e a sustentar a nossa fauna. E como erradicar da nossa árvore?


Como as raízes da erva-de-passarinho se apegam ao tronco das árvores para sugar a seiva.
Fonte da foto

Fonte da foto

A melhor saída para combater os efeitos negativos desta espécie é a poda. Esta ação deve ser feita durante o inverno, anteriormente ao desenvolvimento das sementes do parasita. A explicação para esta escolha é simples: é durante o inverno que as folhas secam e a erva-de-passarinho é facilmente identificada. Para remover esta praga, corte os haustórios (tipos de raízes que se fixam ao caule das árvores) do parasita e raspe os galhos com muito cuidado.

Para mais detalhes sobre esta planta, recomendo também este artigo da Embrapa, que é bem didático e com bastante informações: "Reconhecimento Prático de Cinco Espécies de Erva-de-Passarinho na Arborização de Curitiba, PR" disponível para baixar aqui.


UPDATE

Recebi algumas lindas fotos feitas pela amiga Juliana do blog Jardinet (inclusive, super indico o acesso, pois ela é especialista em jardim para beija-flores e cultivo de horta e também agora com muitos posts sobre orquídeas!) e venho fazer um adendo neste post. Não poderia deixar de acrescentar estas fotos pois não achei nada parecido em minhas pesquisas sobre a erva-de-passarinho!

Se trata de germinação das sementes (que como foi dito, são dispersas pelas fezes dos pássaros) já no caule das plantas e enraizando! Fantástico!


Incrível a "sagacidade" dessa semente! Olha a danada germinando já no tronco onde iria se fixar...
Foto by Jardinet

Um dia a amiga Juliana nos enviou estas fotos. Não me lembro como mas tive um estalo que poderia ser erva-de-passarinho quando ela primeiro enviou uma foto de um galho diferente nascendo no tronco da sua pitangueira. No primeiro momento achei estranhíssimo!
Foto by Jardinet

Outra danada germinando no substrato de orquídea. Notem que nesta o que seria a "raiz" saiu por cima e ainda não tinha grudado no substrato...
Foto by Jardinet
Vejam a danada enraizando no tronco da árvore. Passa desapercebido como um galho novo, mas olhando bem e diferenciando as folhas, dá pra perceber que não pertence à árvore.
Foto by Jardinet

Este galho de erva-de-passarinho estava no galho da pitangueira. Vejam como as folhas são diferentes de uma pitangueira (quem conhece sabe). À um observador sem o olhar "crítico" de um jardineiro que inspeciona suas plantas todos os dias, certamente que passará batido.
Foto by Jardinet


Aí o galho de erva-de-passarinho totalmente integrado ao tronco da árvore. Tem que ter um olhar aguçado para ver que estas folhas não são iguais aos do seu hospedeiro.
Foto by Jardinet





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